Caras-pintadas: mesmo que influenciados pela mídia de massa da época, lutaram com paixão pelo que acreditavam O jovem de hoje é bem diferente do de algumas décadas atrás. Estes manifestavam e protestavam a favor de seus direitos, participavam de movimentos estudantis, resistindo ao regime militar. Talvez os protestos de 1968 tenham injetado uma dose de ânimo nos jovens por possuírem um caráter global. Havia protestos também nos Estados Unidos e na França, mas o Brasil teve um rumo mais político que os dois países. Depois, organizaram as Diretas Já, um grande movimento que uniu o povo num único objetivo, que era o direito de votar e escolher seus governantes. Nesse movimento, conseguiram eleger o Presidente da República em 1989, depois de anos de repressão. Os jovens também foram efetivamente importantes no movimento dos Caras Pintadas, que culminou com a renúncia do presidente Fernando Collor de Mello.
Com tanta luta para readquirir o direito de votar, o jovem de hoje, que possui esse direito, na maioria das vezes não faz questão de exercê-lo. A pesquisa feita por Humberto Dantas, conselheiro da ONG suprapartidária Movimento do Voto Consciente, mostra que 80% dos jovens não se interessam em tirar o título de eleitor mesmo com o direito legal.
O cientista político Marcel Galvani Machado, formado pela Universidade de São Paulo (USP), acredita que o sentimento do jovem é cada vez mais de desconfiança, principalmente por conta da divulgação pela mídia de diversos casos de corrupção nos governos atuais. Inclusive, esse sentimento de esvaziamento dos partidos aumentou após a posse de Lula e do PT. Esses fatos desestimulam o jovem a se integrar na política e se interessar por ela. Os jovens que estão engajados são exceções. “A política ou está diretamente relacionada à profissão exercida por eles ou eles estão mais treinados para a criticidade, entendendo que este assunto influencia diretamente na sua vida.”
O aposentado Claudionor Farias Filho participou do movimento sindical em 1977 e sofreu repressão em protestos para melhoria de salários e da condição do trabalhador, além de criticar a política governamental. Ele acredita que o principal mediador de mudança no país é o jovem. “Quem tem que mudar o sistema é o jovem mas ele não se manifesta. Ele está acomodado. Reclama do sistema mas não faz nada para mudá-lo”. Apesar de ter uma preferência partidária, Claudionor diz que a corrupção sempre existiu mas que nunca foi tão difundida como agora, e que pessoas honestas e corruptas existem em todos os lugares e partidos.
Muitos fatores podem explicar a acomodação dos jovens. A situação política desanimadora, a falta de vontade, a falta de veracidade dos discursos, a preocupação com o futuro e a falta de apoio ou de líderes. E com a sociedade de consumo não há mais propósitos coletivos. A cultura do individualismo e a busca desenfreada pelo poder pessoal estão impregnadas na população. Tudo isso ajuda a inibir o caráter revolucionário e o anseio de quebrar paradigmas que só a juventude - idealista e apaixonada por natureza - tem.
Por Aline






